Oh minha rica geração, a que vos sujeitais…

Dizem que somos os filhos dos que nasceram sem nada e lutaram para nos dar algo. Netos dos que lutaram pela liberdade de dizer “não”. Filhos da famosa Geração Rasca que trouxe ao país a Geração à Rasca e a Geração Nem Nem.

A verdade é que não temos nome, idade ou profissão. Caracterizam-nos facilmente como nativos digitais e a geração dos likes. Criticam-nos porque passamos mais tempo colados num ecrã do que num café rodeados por amigos. Mas nunca se questionam, nem param para nos ouvir, o porquê de um ecrã ser a nossa maior companhia (uma dica: trabalho).

Somos a geração do voluntariado. No verão passado, voluntariei-me para fazer parte da equipa de comunicação de um evento com alguma dimensão, estranhamente até para o voluntariado tive de apresentar um pequeno portfólio e a minha experiência na área. Recebi um e-mail que decifrava algo como “sim, está bem, pode vir trabalhar e oferecemos um pão com queijo”. Rapidamente me apercebi: estava a ser “contratada” para fazer algo que uma empresa de comunicação faria em troca de uma sandes com queijo, logo a mim, intolerante à lactose.

Numa conversa de café, um amigo meu disse-me “estás quase a acabar o curso, para quê trabalhares na tua última semana de férias?”. Respondi-lhe rapidamente “é para o currículo”. Deixei logo claro o quão difícil era ter emprego na área em que estudava e o quão precisava de trabalhar mais que os outros para não acabar, e desculpem-me a piada da praxe, “a servir cafés”.

Recentemente a Web Summit voltou a trazer para a opinião pública os pobres coitados dos voluntários que se divertem como tudo.  Com 11 milhões de euros por ano, a Web Summit tornou-se, como disse Ricardo Moreira, “a cimeira do trabalho grátis”.  O regulamento de voluntariado da Web Summit – que se aplica aos seus dois mil voluntários – não oferece flexibilidade em horários; não lhes permite conviver com outros voluntários; e, na eventualidade de estragar algum equipamento, o voluntário lá terá de pagar.

Pior que isso, só mesmo o fim do regulamento, onde se lê: “os voluntários compreendem que o voluntariado envolve algum risco ou ferimento para eles próprios ou outros no decorrer das suas obrigações. Na hipótese de dano ou ferimento, o voluntário reconhece que a Web Summit não é responsável”. Resumindo, tudo o que acontece na Web Summit é culpa do voluntário.

Há uns anos deparamo-nos com, como um amigo meu cunhou, o Festival Eurovoluntário da Canção, que contou com cerca de 300 voluntários. Isso mesmo, 300 pessoas a trabalhar de graça, sem transporte assegurado, sem estadia. Mas nem tudo é mau, podiam “divertir-se à brava”.

Talvez no verão passado achasse que não feria de todo a minha dignidade ser voluntária num evento financiado, maior parte dos quais com dinheiro público, onde ou usaria o meu material sobre o meu risco ou pagaria o material “emprestado”. Talvez no verão passado a nuvem “desemprego” que me persegue desde o dia em que saíram as colocações da universidade, talvez tudo isto – e muito mais – fosse suficiente para ser mais uma voluntária.

Algo mudou em mim depois daquela conversa de café. Se sou fruto de uma geração que lutou pelo direito ao “não”, passo a usar o meu direito. Hoje digo “não” ao trabalho precário disfarçado de experiência para o CV. E vou dizer até ao dia em que haja “nãos” suficientes para pagarem pelo trabalho da minha geração.

Cátia Barros

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